sábado, 12 de março de 2011

Casamento a Arte de Conversar

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que, os casamentos (relacionamentos) são de dois tipos: Há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol.

Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me.

Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente.

Dizia ele: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice'? Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.'

Scheerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme 'O Império dos Sentidos'.

Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites.

O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fosse música.

A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: 'Eu te amo...'

Barthes advertia: 'Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada'. 'É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética'. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: 'Erótica é a alma '.

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola.

Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir sua 'cortada' , palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar.

O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la.

Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois, o que se deseja é que ninguém erre. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado.

Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração.

O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor...

Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

Rubem Alves

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Saudade

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna

sábado, 29 de janeiro de 2011

Escravidão

A maior grandiosidade de espírito é servir ao outro, ser escravo, escrava, submisso, submissa é esquecer de si próprio e entregar-se... de corpo, alma, espírito em completa confiança, devoção e adoração a quem foi escolhido para nortear a sua vida... é renunciar ao seu próprio "eu" anulando-se completamente para viver o outro é ceder a seu alterego para ser o outro, pertencer ao outro, fazendo-o feliz concretizando esta felicidade, desde as mínimas coisas até em árduos e duros sacrifícios para unicamente satisfazer suas vontades. Amar de forma incondicional sem cobrar nada, sem esperar nada, sem pedir nada, unicamente se dar, oferecer-se, imolar-se em sacrifícios para simplesmente ver no outro a felicidade com a realização dos seus desejos mais recônditos, suas manias mais sórdidas, seu lado mais obscuro.Ai sim vejo a forma suprema do amor na luta interior para abandonar a si próprio e realizar-se plenamente no outro. Estar em estado de submissão não é ser submisso "estar" é momentâneo não é absoluto...mas quem ESTAR = É !!! ??? em tese sim... mas a premissa fica mais verdadeira quando se É = ESTANDO. Cabem-nos como os escolhidos donos, donas proteger o que é nossa propriedade, o que nos pertence de maneira tão incondicional... Ter não pode ser só TER, quem tem cuida, zela, ampara e protege a quem esta nos dedicando tão alta parcela de sua vida.

Particularmente eu lambo as feridas que provoco !!!

Com todo meu carinho,

Rainha Victoria Catharina

Capitão da Meia-Noite ...

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Chico Buarque

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

corpo

E vertia-me em lagrimas de desejo, se contorcia noite a dentro dias semanas meses, esse meu corpo chantagista que insiste e não me deixar dormir, se eu não for te procurar.
Em cada gota que verte por ti, sinto todas as tuas lembranças, a me invadir a saudades mais e mais me consumir.
Corpo chora tua presença aqui.

ANDRE RUIZ




quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para o príncipe que jaz no meu passado

Era um tímido, acanhado,
um mimado, infantil e carente,
esperando movimento do trem à frente,
eu cheguei em tua vida atrasado.

Tropeçando em verbos terminados sem ar,
(amar, calar, revelar, ocultar)
perdia o sujeito, não via o predicado.
Sozinho eu sofria adiantado:
antes, durante e depois de te encontrar.

Pensava eu como pensa todo amante:
nenhum obstáculo conseguiria pagar,
o preço de ser réu confesso perante,
os juízes castanhos do teu olhar.

Éramos objetos nos achados e perdidos,
e nos encontramos depois de esquecidos.
Qual metrô pegar? Qual estação descer?
Esquecia meu nome, mas o teu não podia esquecer.

A cidade, antes estranha, acinzentada,
rua adentro, você pisava, ela sorria;
e quando andava julgando-se só na calçada,
o meu passo acompanhava o dela, que te seguia.

Na linha mais azul da minha vida
foi escrito o teu nome numa estação
raro momento esse de sonho e alegria
sem pensar sequer na futura baldeação.

te perdi na multidão.

E com a tua maestral candura
ensinou-me a mais linda lição:
Não há no mundo relação segura,
existe o risco de contrair paixão.

p.s. para o príncipe que jaz no meu passado.



Poema Luz, Roberto Rodríguez, Junho de 2010.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Eu vejo flores em você


Começaram a amar-se sincronizados. Não souberam quando se fez noite mas também não lhes importou. Saciados de se esculpirem, plenos na certeza de se haverem fundido num, continuaram a arrancar-se beijos que lhes iam nascendo à medida que os iam bebendo; desidratados de amor; secos de se tocarem e de se sentirem e sem poderem parar. Ali ficaram em suspiros, palavras, bocas, arquejos e silêncios plenos. Agora já não eram amigos da alma. Acabavam de se transformar em amigos inteiros de corpo e alma.

in Amores Negados de Ángela Becerra

domingo, 8 de março de 2009

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Mulheres serenas, promessas de nada.
mulheres de vento, de sopro divino,
mulheres de sonho, mulheres sentido,
mulheres da vida, melhor ter vivido...
Mulheres de tempo, em que tudo que havia fazia sentido,
mulheres que eu vejo, no sol de janeiro,
mulheres saídas de potes de vidro,
mulheres faceiras, as mais feiticeiras, melhor ter sorrido...

mulheres de tantos e tantos perigos,
mulheres de vinho e de vã harmonia,
mulheres convívio,
mulheres no cio, as mais parideiras, melhor ter nascido...

mulheres de luzes e de absinto,
mulheres que um dia sonhei colorido,
mulheres de santos, mulheres de igrejas,
as mais rezadeiras, melhor sacrifício

mulheres que um dia deitaram comigo,
mulheres tão lindas e de maior juízo,
mulheres de danças,
as tranças nos ombros, meus olhos caídos...

mulheres que fecham a vã poesia,
mulheres que o ouro não tem nem princípio,
mulheres de outono,
o seu abandono, melhor ter carinho...

mulheres de um tempo em que estive sozinho,
mulheres de riso abrindo janelas,
mulheres que sonham,
seu sono macio, melhor o seu ninho...

mulheres do dia e da noite, eternos,
mulheres que lutam, raízes na terra,
mulheres que as feras,
no meio da noite, não mais intimidam...

mulheres espera, no mar do abandono,
mulheres teares, tecendo seu linho,
mulheres tão loucas,
Seu beijo na boca, uma taça de vinho...

Vito Cesar

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Será?

Será que ainda me resta tempo contigo,
ou já te levam balas de um qualquer inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um covarde, não quis ver sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor nem magia.
será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e morri.
Será que lá fora os carros passam ainda,
ou as estrelas caíram e qualquer sorte é bem-vinda.
Será que a cidade ainda está como dantes
ou cantam fantasmas e bailam gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de luar.
Será que as casas cantam e as pedras do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o vulcão.

Será que sabes que hoje é Domingo,
ou os dias não passam, são anjos caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi feito por nós.
Será que te lembras da cor do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia qualquer.

Eu sei que tu estarás sempre por mim
Não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas também
me desejas agora como nunca ninguém.
Não partas então, não me deixes sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o caminho.
Será,
Será,
Será!


Pedro Abrunhosa

domingo, 23 de novembro de 2008

Lágrimas Negras

Jorge Mautner / Nelson Jacobina

Na frente do cortejo
O meu beijo
Forte como o aço
Meu abraço
São poços de petróleo
A luz negra dos teus olhos
Lágrimas negras saem, caem, doem
Lágrimas negras saem,caem, doem
Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco
Pendurado na orelha
Astronauta da saudade
Com a boca toda vermelha
Lágrimas negras saem, caem, doem
São como pedras de moinho que moem
Roem, moem
E você, baby
Vai, vem,vai
E você baby
Vem, vai, vem
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas
Pelo sofrimento
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas
Pelo sofrimento
Lágrimas negras saem, caem, doem
Lágrimas negras saem, caem, doem